Lucas 9,22-25
E continuou:
- O Filho do Homem terá de sofrer muito. Ele será rejeitado pelos líderes judeus, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da Lei. Será morto e, no terceiro dia, será ressuscitado.
Depois disse a todos:
- Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto cada dia para morrer como eu vou morrer e me acompanhe. Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira; mas quem esquece a si mesmo por minha causa terá a vida verdadeira. O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a vida verdadeira e ser destruído?
Comentário do Evangelho
Cruz todos os dias
— Logo no início da caminhada quaresmal nos aparece a cruz redentora, como porta estreita que nos leva à vida. Quaresma evoca os quarenta anos da caminhada do povo de Israel, tempo de luta até ao fim. Na Páscoa da Igreja e do cristão também a cruz nos acompanha nas dores e provações de todos os dias, como preço da «passagem» e certeza da vitória. Quaresma é luta contra inimigos, que nos desafiam e assaltam. Quaresma é a cruz.
A cruz é a árvore da vida, que Deils plantou para dar frutos de salvação e vida eterna. Encerra no seu mistério todos os dons, dela nos vem toda a graça. Por isso, a sua força nos exalta, a sua fecundidade exige e compromete. Cruz é negar-me a mim mesmo, dizer não a orgulhos e egoísmos. Cruz é o peso do dia e do calor, o cansaço e monotonia de cair e levantar, o recomeçar todos os dias. Cruz é grito de amor, dar a vida pelo amigo. No exame do amor, a prova real é a cruz.
Mas a cruz do cristão é uma cruz gloriosa, certeza de ressurreição. Nela está toda a nossa glória, a nossa honra e triunfo. Sem ela a fecundar a vida, tudo é perda e desilusão. A minha grandeza e valor medem-se pelo tamanho da cruz que eu levar. Cruz é o meu trono real, erguido ao alto, que me proclama e exalta como rei e senhor. Cruz é o peso e medida de todos as coisas. Nela tudo mudou de nome e sentido: per¬der é salvar e salvar é perder.
«Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gl 6,14).
Comentário ao Evangelho do dia feito por
Bem-aventurado João XXIII (1881-1963), papa
Diário da alma, 1930, retiro em Rusciuk
Tome a sua cruz, dia após dia
O amor da cruz do meu Senhor atrai-me cada vez mais nestes dias. Ó Jesus bendito, que isto não seja um fogo inútil, que se apague com a primeira chuva, mas um incêndio que arda sempre sem nunca se consumir. Nestes dias encontrei outra bela oração, que corresponde perfeitamente à minha situação actual [...]: Ó Jesus, meu amor crucificado, adoro-Te em todas as Tuas penas. [...] Abraço de todo o coração, por Teu amor, todas as cruzes de corpo e de espírito que me sobrevierem. E faço profissão de pôr toda a minha glória, o meu tesouro e a minha alegria na Tua cruz, ou seja, nas humilhações e nos sofrimentos, dizendo com São Paulo: Quanto a mim, não me glorie, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (Gal 6, 14). Não quero para mim outro paraíso neste mundo que não seja a cruz do meu Senhor Jesus Cristo. [...] Tudo me convence de que o Senhor me quer todo para Si, pelo caminho real da cruz. Por este caminho, e não por outro, desejo avançar. [...]
Uma nota característica deste retiro espiritual tem sido uma grande paz e alegria interior, que me encoraja a oferecer-me ao Senhor, em ordem a qualquer sacrifício que Ele queira pedir-me. Desejo que esta tranquilidade e esta alegria penetrem cada vez mais, por dentro e por fora, toda a minha pessoa e toda a minha vida. [...] Terei muito cuidado na guarda deste gozo interior e exterior. [...] Para mim, deve ser um convite perene a imagem de São Francisco de Sales que, entre outras, gosto de repetir: eu sou como um passarinho que canta num bosque de espinhos. Assim, pois, poucas confidências sobre o que possa fazer-me sofrer. Muita discrição e indulgência no meu juízo acerca das pessoas e das situações; inclinação para orar especialmente por quem for para mim motivo de sofrimento; e, em tudo, grande bondade e paciência sem limites, lembrando-me de que qualquer outro sentimento [...] não está de acordo com o espírito do Evangelho nem da perfeição evangélica. Prefiro ser considerado um pobre homem, desde que, a qualquer preço, faça triunfar a caridade. Deixar-me-ei esmagar, mas quero ser paciente e bom até ao heroísmo.