Santo Hilarião, anacoreta (+371)

«Eu farei, burrinho, que não dês coices; não te alimentarei com cevada, mas com palha; far-te-ei padecer fome e sede, e colocarei sobre o teu lombo uma pesada carga».

Assim falava ao seu corpo Hilarião quando se retirou para o deserto. E, ao morrer, já centenário: «Sai, alma minha, que esperas? Setenta anos que serves a Cristo, e ainda temes morrer?»

Estamos perante um homem que chamou poderosamente a atenção no seu tempo e até nos nossos dias, pela sua grande austeridade de vida e pelos duros tormentos com que açoitava o seu pobre corpo.

Parece que nasceu na Palestina, na cidade de Tabatha, aí pelos anos 271. A sua vida é conhecida graças a São Jerônimo. Nela conta as maravilhas que este homem realizou durante a vida dando testemunho de uma extraordinária vida mortificada. Até à Idade Média se estendeu a sua fama chegando a ser um dos santos mais conhecidos e que mais émulos teve em todos os tempos. Era de uma família nobre e deixou tudo para seguir a Jesus Cristo pelo caminho da solidão e da mais estreita mortificação. Ele tinha ouvido falar de Santo Antão, Abade, e um bom dia pôs-seta caminho para dar com o seu paradeiro e colocar-se às suas ordens. Antão recebeu-o com grande bondade e bem cedo o discípulo soube imitar o mestre. Uma vez doutrinado, disse-lhe: «Parte, filho, para a tua pátria que ali te espera o Senhor. Persevera nos teus trabalhos até ao fim porque o Senhor te fará experimentar a doçura de quanto se padece por Ele».

Com esta bênção, Hilarião abandonou o Egito e encaminhou-se de novo para a sua pátria. Retirou-se para o deserto e começou a levar a mesma vida que tinha visto em Antão.

Não era forte de compleição e contudo macerou o seu corpo com todas as forças. Não levou consigo senão um saco, a túnica de mangas largas e compridas e com capuz, uma manta e a Bíblia. Sim, algo mais levava na sua alma: grandes desejos de entrega a Deus e disponibilidade para mortificar o seu corpo enquanto este tivesse resistência.

No início da sua estadia no deserto aproximaram-se dele uns bandidos e ao vê-lo naquele mísero estado, disseram-lhe:

Ouve: que farias se viessem aqui uns ladrões?

O que está desnudo - respondeu - não tem nada a temer.

Mas poderiam matar-te...

- Sim, respondeu, mas eu estou sempre disposto a morrer.

Aqueles bandoleiros ficaram profundamente impressionados com a valentia daquele homem e afastaram-se pensando naquelas maravilhas que acabavam de escutar.

Tinha o corpo bem domado, mas apesar disso, o demônio não deixava de o tentar para o fazer cair nas suas redes. O Senhor permitia que pensamentos torpes acudissem à sua mente e que visões e ruídos muito esquisitos lhe tirassem a paz em que se propusera viver. Ele não desistia por causa disso. Redobrava os seus jejuns e penitências. Às vezes invectivava-os com ardorosas palavras e fazendo sobre eles o sinal da cruz.. .eles fugiam cobardemente.

Estava todo o dia ocupado: rezava, fazia e desfazia esteiras, trabalhava numa pequena hortazita, dava bons conselhos a todos os que recorriam a ele. Mais de uma vez foram ter com ele para o tentar. Mas ele sabia o remédio para afugentar estes demônios: fugir e fazê-los fugir a eles. Não alimentar conversa. Não voltar o olhar para eles. Castigar o corpo. Assim dominava a tentação debaixo das três formas do mundo, do demônio e da própria carne que era a que mais o atormentava.

Passou os últimos anos da vida caminhando de uma parte para outra pregando sempre mais com o exemplo maravilhoso da sua vida que com as suas palavras embora também estas transmitissem o fogo que tinha dentro da alma. Fazia muitos milagres que depressa denunciavam a sua presença. Cheio de méritos partiu para a eternidade no ano 371.