Estimativas do Instituto Pet Brasil apontam que existem 4,8 milhões de cães e gatos vivendo em situação de vulnerabilidade no país. Desse total, pouco mais de 201 mil estão sob os cuidados de ONGs. Esta diferença abismal evidencia a dificuldade de amparar todos os animais vulneráveis e o limite do trabalho voluntário.
A Igreja demonstra uma preocupação profunda com a vida que habita a Casa Comum, como definiu o Papa Francisco na encíclica Laudato si’. Em um dado ponto, Francisco afirma que “tudo está interconectado”. Sendo assim, o abandono de animais domésticos reflete uma “cultura do descarte” que agride não apenas o animal, mas o próprio equilíbrio social e espiritual da comunidade.
“O Papa, profeticamente, afirma na Encíclica que cada ser criado é uma ‘carícia de Deus’; cada ser foi amado por Deus antes de ser criado e, portanto, porta um valor em si, e não somente um valor instrumental e utilitário”, alerta o frei Gilmar Zampieri, OFMCap.
O frade, no entanto, lamenta a cultura econômica hegemônica, que trata tudo como descartável. “Essa lógica alcança tanto humanos quanto a natureza e os animais. As coisas têm preço; a dignidade é que estabelece direitos. Sem ela, os seres tornam-se descartáveis como um produto que já não satisfaz”, pondera.
Aumento de casos de crueldade animal
O Brasil registrou um aumento exponencial na crueldade contra animais nos últimos anos. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que os registros de maus-tratos subiram 1.400% desde 2021. Apenas em 2025, foram 4.919 novas ocorrências — uma média de 13 por dia, alta de 21% em relação ao ano anterior.
Redes de conscientização
Paróquias podem atuar como redes de proteção, transformando o “carinho com a criação” em ações concretas de castração e adoção responsável. “A forma mais concreta seria criar conselhos do meio ambiente e da questão animal nas paróquias, articulados com a sociedade civil”, aponta Frei Gilmar.
Além disso, é urgente educar as novas gerações sob a premissa do cuidado com a Criação. “Crianças e jovens têm uma sensibilidade apurada. Nas nossas comunidades de fé, o que falta é formação que fundamente uma mudança de paradigma”, deduz o frei.
Adoção consciente
A vendedora Sheila Aparecida da Silva adotou seu primeiro gato há dez anos. Pouco depois, acolheu uma gata de rua prenha. “Infelizmente, perdi meu primeiro gato vítima de um cachorro, e a gata de rua teve um fim triste pela maldade humana. Os filhotes dela ficaram comigo e estão ao meu lado há nove anos”, recorda. Sheila afirma que sua trajetória com os animais é cercada de muito “amor e encontros”.
Sobre esse aspecto, Frei Gilmar recorda a Laudato Si’: a espécie humana não é soberana para submeter a natureza ao seu bel-prazer. “Na Criação não há hierarquia, há complementaridade. O lugar de destaque do humano é o lugar ético de ser o continuador da obra da Criação, com zelo e proteção”, finaliza.
Fonte: Canção Nova






