Neste 24 de fevereiro, o conflito protagonizado por Ucrânia e Rússia chega a seu quarto ano. Ainda que diplomatas e representantes de ambas as nações afirmem que as negociações sigam em frente, nem os ucranianos acreditam que a guerra terá um fim breve. A Igreja desde o início lançou apelos em prol do diálogo e da paz.
O Papa Francisco observou o choque entre russos e ucranianos desde o início, em 2022, e adotou uma postura voltada à diplomacia de proximidade. O termo “Ucrânia martirizada” foi cunhada pelo Pontífice naquele ano para ressaltar o sofrimento de toda a população. “Renovo meu convite à oração pela Ucrânia martirizada”, disse Francisco ao final da Audiência Geral em 9 de novembro de 2022.
No dia seguinte ao início do conflito, Francisco esteve na Embaixada da Federação Russa junto à Santa Sé, na Via Della Conciliazione. Durante 30 minutos, o então Santo Padre falou sobre a preocupante situação entre as duas nações. Passados nove meses de guerra, ele enviou uma carta aos ucranianos, na qual expressou a dor partilhada com o povo.
“Gostaria de unir minhas lágrimas às de vocês e dizer-lhes que não há um dia em que não esteja perto de vocês e não os leve em meu coração e em minhas orações. A dor de vocês é a minha dor. Na cruz de Jesus hoje vejo vocês, vocês que sofrem o terror desencadeado por esta agressão. Sim, a cruz que torturou o Senhor revive nas torturas encontradas nos cadáveres, nas valas comuns descobertas em várias cidades, naquelas e em muitas outras imagens sangrentas que penetraram em nossas almas, que levantam um grito: por quê? Como os homens podem tratar outros homens assim?”, escreveu à época.
Jejum e oração
Após a Catequese de 23 fevereiro de 2022, o Papa Francisco convocou um dia de de jejum e oração pela paz. E voltou a mencionar o cenário de tensão na Ucrânia, destacando que a paz de todos estava ameaçada. “Tenho uma grande tristeza em meu coração com o agravamento da situação na Ucrânia. Apesar dos esforços diplomáticos das últimas semanas, cenários cada vez mais alarmantes estão se abrindo. Como eu, muitas pessoas ao redor do mundo estão experimentando angústia e preocupação. Mais uma vez, a paz de todos está ameaçada por interesses de parte”, lamentou.
Nas intenções da Quarta-Feira de Cinzas daquele ano, Francisco acrescentou uma especial: a paz pela Ucrânia e todas as nações em guerra. “Jesus nos ensinou que à diabólica insensatez da violência se responde com as armas de Deus, com a oração e o jejum. Convido a todos a fazerem no próximo 2 de março, Quarta-feira de Cinzas, um dia de jejum pela paz”, pediu à época.
Leão XIV: incentivo ao diálogo
Com a morte do Papa Francisco em 21 de abril de 2025, a Igreja elegeu um novo Papa – Leão XIV. Iniciando seu pontificado enfatizando uma “paz desarmada e desarmante”, ele segue os passos de seu predecessor na insistência pelo diálogo, caminho para a paz. Para o dia 22 de agosto do ano passado, o Pontífice convocou um dia de jejum e oração pela paz, mobilizando toda a Igreja nesta intenção.
Em menos de um ano de pontificado, Leão XIV já se reuniu algumas vezes com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. A mais recente, em dezembro de 2025, foi realizada na residência pontifícia de Castel Gandolfo. No encontro, o Pontífice reforçou a necessidade de seguir com o diálogo e renovou a esperança de que a paz seja alcançada. No comunicado divulgado pelo Boletim da Santa Sé na ocasião, informou-se que o Papa e o presidente ucraniano conversaram, inclusive, sobre os prisioneiros de guerra e a necessidade de assegurar o retorno das crianças ucranianas às suas famílias.
Perspectivas futuras
O fim do conflito ainda não parece estar no horizonte próximo. Na manhã desta terça-feira, 24, o Kremlin disse que a decisão dos países ocidentais de intervir no conflito na Ucrânia transformou-o num confronto muito mais amplo. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, disse que os combates continuam, mas que Moscou permanece aberta a alcançar seus objetivos por meios políticos e diplomáticos. As informações foram noticiadas pela agência de notícias Reuters.
A Igreja, por sua vez, segue firme com um único objetivo: a paz. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados estima que cerca de 5,9 milhões de pessoas emigraram do país. O site Relief Web relata que mais de 15 mil civis foram mortos. Cerca de um quarto da população pré-guerra, de 42 milhões de pessoas, foi perdida.
O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, refletiu, em entrevista ao Portal Vatican News, sobre os anos que se passaram desde a invasão ucraniana, afirmando que, apesar da tragédia crescente, o povo ucraniano continua a resistir e permanece grato pela solidariedade internacional. “Ao longo destes quatro anos, recebemos muita solidariedade de toda a Igreja universal, promovida sobretudo pelo Santo Padre – primeiro pelo Papa Francisco, de saudosa memória, e agora pelo Papa Leão XIV”, disse o arcebispo.
“Essa solidariedade teve seus altos e baixos. Lembro-me dos primeiros dias da guerra, quando a ajuda humanitária chegava em grandes quantidades de vários países da Europa e do mundo todo. No entanto, no ano passado, em 2025, a ajuda praticamente desapareceu”, lamentou o religioso.
Por outro lado, a solidariedade reforçada pelos pedidos de Leão XIV tem surtido efeito. “Hoje, vivenciamos uma onda de solidariedade que vai além do apoio financeiro: é importante para nós que todas as paróquias europeias falem sobre o sofrimento de Kiev, porque a memória cristã e a oração têm sido capazes de despertar consciências e corações. Somos profundamente gratos a todos aqueles que contribuíram para salvar vidas na Ucrânia”, finaliza.
Fonte: Canção Nova






