O papa Leão XIV disse na audiência geral de hoje (4) que a Igreja não pode ser compreendida só de uma perspectiva humana ou institucional, mas sim como “desígnio de amor de Deus para a humanidade, realizado em Cristo”, embora tenha dito que isso não pressupõe a “superioridade espiritual” dos seus membros.
“Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas só a única Igreja de Cristo, encarnada na história”, disse o papa.
Leão XIV prosseguiu com sua catequese sobre a constituição dogmática Lumen gentium, um dos documentos fundamentais do Concílio Vaticano II, em que a Igreja é descrita como “uma realidade complexa”.
Ele disse que essa complexidade não significa que a Igreja seja “complicada” ou difícil de explicar, mas sim que expressa “que, na sua unidade, coexistem aspectos ou dimensões diversas”.
O papa disse que a Igreja é “um organismo bem articulado”, no qual “coexistem a dimensão humana e a dimensão divina, sem separação nem confusão”.
Ele disse que a dimensão humana da Igreja é evidente, já que ela é composta por “uma comunidade de homens e mulheres que partilham a alegria e o esforço de ser cristãos, com as suas qualidades e os seus defeitos, anunciando o Evangelho e tornando-se sinal da presença de Cristo que nos acompanha ao longo do caminho da vida”.
“Uma realidade humana e ao mesmo tempo divina”
Leão XIV disse que essa descrição não é suficiente, pois a Igreja também tem uma dimensão divina, dizendo que ela não consiste em “uma perfeição ideal, nem numa superioridade espiritual dos seus membros, mas na constatação de que a Igreja é gerada pelo desígnio de amor de Deus para a humanidade, realizado em Cristo”.
“À luz da realidade de Jesus, agora podemos voltar à Igreja: quando olhamos de perto para ela, descobrimos uma dimensão humana feita de pessoas concretas, que às vezes manifestam a beleza do Evangelho, e outras esforçam-se e erram como todos”, disse o papa.
Mas, disse ele, “precisamente através dos seus membros e dos seus limitados aspectos terrenos, manifestam-se a presença de Cristo e a Sua ação salvífica”.
Leão XIV disse que a Igreja é, ao mesmo tempo, “comunidade terrena e ao mesmo tempo corpo místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual”.
O papa disse que ambas as dimensões “integram-se harmoniosamente, sem que uma se sobreponha à outra”, dando origem a um paradoxo frutífero: “É uma realidade humana e ao mesmo tempo divina que acolhe o homem pecador, conduzindo-o a Deus”.
Para elucidar essa condição, Leão XIV falou sobre a vida de Jesus Cristo. Ele disse que aqueles que encontraram Cristo experimentaram Sua humanidade — “Seus olhos, Suas mãos, o som de Sua voz” — mas também, por meio dessa carne visível, “abriam-se ao encontro com Deus”, visto que “a carne de Cristo, o Seu rosto, os Seus gestos e as Suas palavras manifestam de modo visível o Deus invisível”.
“No entanto, precisamente através dos seus membros e dos seus limitados aspectos terrenos, manifestam-se a presença de Cristo e a sua ação salvífica”, disse o papa.
Não há oposição entre o Evangelho e a Igreja.
O papa citou as palavras de Bento XVI, que disse que não há oposição entre o Evangelho e a instituição, já que as estruturas eclesiais servem para “a realização e a concretização do Evangelho no nosso tempo» (Discurso aos bispos da Suíça, 9 de novembro de 2006)”.
Leão XIV disse que a santidade da Igreja não reside na impecabilidade de seus membros, mas no fato de que “Cristo habita nela e continua a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros”. Esse “milagre perene”, disse ele, permite compreender “o método de Deus”, que “se torna visível através da debilidade das criaturas”.
O papa falou sobre Evangelii gaudium, do papa Francisco, que exorta os fiéis a “tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5)», dizendo que a construção da Igreja não se limita à organização visível, mas envolve a construção “daquele edifício espiritual que é o corpo de Cristo, através da comunhão e da caridade entre nós”.
Ele também citou santo Agostinho para lembrar a todos que a caridade é o coração da vida eclesial: “«Queira o Céu — afirmava Santo Agostinho — que todos prestem atenção unicamente à caridade: sim, só ela vence tudo, e sem ela, todas as coisas não valem nada; onde quer que ela esteja, atrai tudo a si» (Serm. 354, 6, 6)”
Ao fim da catequese, Leão XIV saudou os fiéis presentes, dizendo-lhes que “a Quaresma nos exorta a reconhecer Cristo como a suprema esperança do homem”.
Falando-se aos jovens, ele os encorajou a “influenciar positivamente diferentes áreas da vida”. Por fim, pediu aos recém-casados que descobrissem “o valor da oração na igreja doméstica” que haviam formado.
Fonte: ACI Digital





