Em meio a diversas discussões sobre a inteligência artificial e seus usos no mundo contemporâneo, a carta encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV, tem sido um farol para iluminar e nortear o debate acerca desse tema. Exemplo disso é a recente assinatura da Declaração de Roma, documento escrito após três dias de trabalho em assembleia que reuniu líderes mundiais e pessoas de destaque em Castel Gandolfo.
Diante disso, o noticias.cancaonova.com inaugura nesta segunda-feira, 20, uma série especial sobre a Magnifica Humanitas. Na primeira delas, apresentamos o capítulo que abre a encíclica, dedicado ao magistério recente sobre a Doutrina Social da Igreja (DSI).
O papel da Igreja em meio à revolução tecnológica
O professor do Seminário Nossa Senhora da Assunção, da Arquidiocese de São Paulo (SP) e doutor em Ciências da Religião, Altierez dos Santos, assinala que a DSI vê a tecnologia como fruto da inteligência humana dada por Deus para colaborar com a Criação.
Desta forma, o interesse pela inteligência artificial (IA) justifica-se porque a DSI lê os “sinais dos tempos”, e a IA altera profundamente o trabalho e a sociedade. “Não é difícil ver o impacto profundo que a IA, recém surgida, realocou em tantas e tantas áreas da vida, afetando desde lazer a trabalho, de informação a produção de notícias falsas, de cultura a economia”, afirma Altierez.
Frente a essas mudanças, a Igreja, que mantém sua independência frente a governos e megacorporações tecnológicas, oferece apoio à sociedade agindo como uma bússola ética independente, promovendo espaços de diálogo plural entre cientistas e legisladores, e defendendo a consciência humana contra a manipulação de dados e a desinformação.
“A Igreja não impõe soluções técnicas, mas ilumina as escolhas morais da humanidade, que aliás, é o que se espera dela e que não é algo novo, mas desde sempre foi algo que a Igreja fez, sobretudo pelo Magistério. É como a Igreja diz ao mundo que Deus cuida de nós”, sinaliza o professor.
Preocupação com o ser humano
Altierez destaca, entre outros documentos ligados à DSI, a carta encíclica Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII em 1891. Ele indica os paralelos históricos entre os dois documentos, publicados entre duas situações históricas marcadas pela reificação do ser humano, explorado ao ponto de gerar riqueza e ainda ser a própria mercadoria.
“Essa questão ofende gravemente o sentido da Criação e ofende ainda mais o Criador”, analisa o cientista. “Ontem, o medo era a mecanização; hoje, a automação por IA e suas consequências já conhecidas, além de outras que nem imaginamos. A preocupação eclesial evoluiu da sobrevivência material do operário (século XIX) para a defesa antropológica (século XXI), contra o risco de desumanização da mente e das relações mediadas por telas”, acrescenta.
Algumas décadas depois, o Concílio Vaticano II trocou a postura defensiva da Igreja pelo diálogo aberto e solidário com o mundo moderno. “A visão conciliar confirmou o ser humano como o centro de toda a vida socioeconômica, reforçando o método de escutar a história”, afirma Altierez.
Entre os documentos conciliares, o professor ressalta a constituição pastoral Gaudium et Spes, que passou a ser a espinha dorsal da DSI, conectando a Igreja aos dramas e progressos humanos; a declaração Dignitatis Humanae, que realizou uma defesa intransigente da liberdade de consciência; e o decreto Apostolicam Actuositatem, que convocou os leigos a transformarem a ordem social.

Sessão do Concílio Vaticano II / Foto: Domínio Público.
As lições de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco
Mais recentemente, os pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco responderam a questões próprias de cada época. Cada um deixou lições cruciais para os dias de hoje, aponta o cientista, e ainda que elas não sejam datadas, também não deixam de ser atuais.
São João Paulo II defendeu o primado do trabalhador sobre a máquina e alertou contra as “estruturas de pecado” geradas por sistemas econômicos que desumanizam. Bento XVI criticou a “tecnocracia” e ensinou que a eficiência técnica sem limites morais e sem a busca da verdade escraviza o ser humano. Francisco propôs a “ecologia integral” e a fraternidade real, alertando que a conectividade digital não substitui o encontro humano e denunciando a “cultura do descarte”.
“A grande mensagem da DSI, atualizada com a Magnifica Humanitas, é que o avanço tecnológico só é legítimo se gerar mais solidariedade, justiça, alegria e paz”, conclui Altierez.
Fonte: Canção Nova







